terça-feira, 7 de setembro de 2010

Tragédia em dose dupla

O compromisso com a adoção de boas práticas de governança pública ainda não foi assumido expressamente por nenhumdos candidatos à Presidência da República. Por desconhecimento da matéria ou, pior, por desinteresse, a boa governança há muito praticada em grandes corporações, hoje um dogma no setor privado, parece não seduzir o meio político – que prefere seu oposto, a “governabilidade”. Graças à opção pelo conforto da “governabilidade” em detrimento da boa governança, o primeiro escalão do governo federal ostenta hoje quase 40 ministérios – e há quem prometa aumentar esse número. Explica-se: a “governabilidade” justifica o abrigo em porto seguro e caixa generoso da “base aliada” na máquina pública, enquanto a boa governança requer espírito público, competência, probidade e eficiência. Simples assim.

O crescimento escandaloso do número de órgãos públicos federais nos últimos oito anos foi necessário para colocar, em todos os níveis da Administração, as lideranças e os “companheiros” dos partidos políticos que apoiam o governo no Congresso Nacional e pelo país afora. Os critérios para essa ocupação da máquina pública passam longe da capacitação técnica, moral e até política dos nomeados – o que, aliás, não é novidade no Brasil. A fatura, como sempre, é paga pelo contribuinte. Duas exceções são o Itamaraty e as Forças Armadas, que têm quadros formados por profissionais saídos de cursos específicos.

As consequências danosas da “governabilidade” são evidentes em todas as áreas e em todos os níveis da gestão pública, escancarando uma realidade dramática como a que se vê no país inteiro a cada temporadade chuvas. Verbas destinadas no orçamento federal para a prevenção de calamidades não são usadas e, quando o são, privilegiam currais eleitorais dos políticos que as liberam. O mesmo ocorre com os recursos destinados à reconstrução dos danos causados por enchentes e deslizamentos de encostas de morros, sempre aplicados, de forma oportunista, nos mesmos redutos. Pior: o Brasil parece ter-se acostumado a isso.

A reportagem especial desta edição que aborda esse tema mostra as duas faces dessa tragédia brasileira aparentemente insolúvel. De um lado, a força destruidora da natureza, a qual ninguém e governo algum podem obstar. De outro, a tragédia da má gestão, encastelada em gabinetes oficiais incompetentes, imprevidentes, inoperantes e povoados de “aliados” dispostos a usar o dinheiro público exclusivamente como instrumento de ação político-eleitoral.